segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Um livro aberto


A iniciativa inédita da Google: catalogar o conteúdo de todos os livros do mundo

Uma moderna Biblioteca de Alexandria. Vários pensadores e articulistas descreveram assim o projeto monumental do Google para digitalizar os cerca de 55 mihões de livros que, segundo a OCLC (Centro Computadorizado Online de Bibliotecas), existem no mundo. Já outros – tão esclarecidos e visionários quanto – consideram o projeto temerário. Para eles, constituiria uma ameaça à propriedade intelectual entre outros perigos orwellianos.

Na realidade, a Pesquisa de Livros do Google (http://livros.google.com.br) não é nem uma coisa nem outra. É simplesmente uma maneira nova das pessoas descobrirem livros – o que não deixa de ser revolucionário. Tradicionalmente, leitores descobrem livros por meio de uma resenha em revista ou jornal, por indicação de um conhecido ou professor, reparando na capa ou título numa livraria, ou porque acompanham o trabalho do autor. Pois o Google torna pesquisáveis os textos completos dos livros (calma, eu disse “pesquisáveis” e não visualizáveis). Assim, é a afinidade temática do usuário com o conteúdo do livro que o faz ser descoberto. O leitor procura informação ou entretenimento e acha um livro.

Se o livro encontrado estiver no domínio público, ele pode ser visto por completo, páginas podem ser impressas e é possível, até mesmo, baixar o arquivo em PDF. Se não for de domínio público, os sistemas de segurança do Google Livros bloqueiam as funções de copiar, imprimir e salvar e limitam o acesso do usuário à visualização de alguns trechos ou páginas, dependendo da origem do livro. Os livros vêm de duas fontes: bibliotecas e parceiros (editoras e autores). Quando vêm de biblioteca e não estão no domínio público, o Google só permite a visualização de pequenos trechos contendo as palavras buscadas. Com isso, cumpre as leis de direitos autorais. Já no caso dos livros incluídos no programa por parceiros, o usuário enxerga até 20% das páginas. O que o Google ganha com isso? É simples: o buscador melhora a qualidade dos resultados que oferece aos seus usuários, pois livros são uma fonte altamente qualificada de informação. No longo prazo, a aposta é que isso se traduza em mais usuários fazendo cada vez mais buscas.

O que incentiva autores e editoras a incluírem seus livros no programa é a possibilidade – ou melhor, a probabilidade – de que mais pessoas os descubram, tomem interesse e queiram comprá-los. Cada página que é visualizada apresenta links para livrarias nas quais o usuário pode encontrar aquele livro. Os dados acumulados sobre os milhões de livros que já estão no ar comprovam que quanto mais páginas são vistas, maior a propensão ao clique num desses links. No Brasil, editoras pioneiras como Ediouro, Record, Objetiva, Edusp, Unesp, Loyola, Artmed, Elsevier e outras – totalizando mais de 100 editoras locais - já se juntaram aos mais de 20 mil parceiros e 29 bibliotecas do mundo afora que estão contribuindo livros ao projeto. Enquanto isso, outras editoras brasileiras mantêm seus livros fechados nas prateleiras para serem descobertos só pelas maneiras tradicionais em vez de permitir que sejam transformados em bits e bytes para fluírem pela rede até encontrarem seus leitores.

Em agosto de 2008, os detentores de direitos autorais de livros brasileiros ganharam um incentivo a mais para incluírem seus títulos no Google Livros. Por meio de um acordo com o buscador, a Livraria Cultura passou a disponibilizar prévias de livros dos parceiros do Google em seu site (a visualização é limitada e todos os mesmos mecanismos de segurança se aplicam). Com isso a experiência de comprar livros pelo site da Cultura e a de fazê-lo em uma das lojas da rede ficaram um pouco mais parecidas: usuários do site agora podem percorrer algumas páginas do título antes de tomar a decisão de comprar. E a expectativa geral é que isso represente um estímulo à compra pelo site.

Mas não é só no Google ou na Cultura que as prévias serão disponibilizadas. Além de procurar novos parceiros varejistas no país, o Google tornou possível, para qualquer site, oferecer prévias de livros a seus usuários. Com isso, as prévias de livros – contando sempre com os dispositivos de segurança e limitação à visualização – ganham um potencial de distribuição sem precedentes e os livros ganham milhares de novos canais para promoção e divulgação. Os desenvolvedores de sites que tenham interesse na funcionalidade podem se informar na página de aplicativos de livros do Google Code (http://code.google.com/apis/books).

Apesar de estar anos luz à frente de qualquer outra iniciativa de digitalização, indexação e promoção de livros do mundo, é importante lembrar que o Google Livros ainda é embrionário, que ainda está nascendo. A empresa e seu projeto irão continuar se desenvolvendo, sempre respeitando os direitos autorais, sempre promovendo os interesses de seus usuários e parceiros e sempre, inexoravelmente, inovando.


Texto de Rodrigo Velloso. Administrador, jornalista e Diretor de Desenvolvimento de Negócios do Google no Brasil. E-mail: rvelloso@google.com

Um comentário:

Luiz Duarte disse...

Gatekeepers

Blog da Traça / http://www.traca.com.br/main/traca.php

Parece bacaninha, não? O Google, com sua benevolência característica, fará outro grande favor à humanidade, digitalizando milhões de livros que ainda têm direitos autorais mas que estão esgotados e não serão reeditados. Em compensação, o Grande Irmão se tornará, na prática, a única fonte onde tais livros poderão ser encontrados. Note que o acordo prevê apenas UM terminal do Google disponível para consulta gratuita por biblioteca.

No início, tudo será aberto, com receita apenas de publicidade. E depois? Para entendermos o “depois”, temos que conjugar esta iniciativa com outra frente de combate da empresa, o Google Books. O Google Books é aquela tentativa de digitalizar todos os livros que estão sendo editados agora e disponibilizar parte de seu conteúdo na Internet, como fonte de consulta e como “teaser” para os leitores.

Deixemos os scanners e os editores de texto trabalharem uns dez anos nestes projetos. O que teremos então? Grande parte do conhecimento da humanidade sob domínio de uma única empresa. Acrescentemos a isto a evolução inescapável dos aparelhos de leitura (hoje os toscos Sony Reader e Amazon Kindle, principalmente) e teremos eliminado do circuito do livro TODAS as livrarias e distribuidoras. Teremos um mercado totalmente novo, concentrado no Google e com alguma participação da Amazon.

Neste ponto, estes grandes players de um mercado oligopolizado e do tipo “winner takes all” poderão ditar seus preços e condições. Acredito que o livro de papel perderá grande parte do mercado, ficando restrito a algumas edições de luxo cults, mais como objetos do que como livros propriamente. Se você quiser ler algo, será simples: entre no site do Google ou da Amazon e faça o download para o gadget da hora, que provavelmente será um fantástico misto de computador, celular, biblioteca, centro de diversões e outros quetais de bolso. E pague o preço por eles fixado, nas condições de uso por eles ditadas.

A questão das condições de uso, muitas vezes relevada como quase irrelevante, é, na verdade, importantíssima, pois limita totalmente o uso do conteúdo. Vou listar abaixo alguns links de blogs mais antigos da Carmen sobre e tema e, outro dia, retomamos o tema, até porque não chegamos na parte mais relevante – estas empresas serão o que antigamente se chamava, em teoria da comunicação, de “gatekeepers”, ou seja, terão o controle sobre o acesso ao conteúdo.